Hoje é dia do Médico.
Apesar de médico formado há 26 anos, sinto minha profissão tão instável quanto nosso pobre país.
Cada vez mais escolas médicas formando profissionais pouco qualificados e tendo que enfrentar outro "vestibular" após a conclusão do curso. Os hospitais que fornecem especialização (residência) médica NÃO se multiplicam politicamente como as novas escolas médicas. Os profissionais recém formados disputam acirradamente as melhores colocações nos melhores hospitais de ensino. E aqueles que não conseguem passar nestas provas de seleção restam duas alternativas: 1- "caem na vida" sem especialização e à caça de sub empregos mal remunerados, na maioria das vezes em empregos públicos como "Médicos de Família" ( programa muito incentivado pelo governo PT atual. 2- Aguardam mais um ano em "bicos" para sobrevivência, voltam a enfrentar nova seleção de residência médica onde poucos conseguem passar e a maioria retorna ao ítem 1.
Outra mudança que senti neste quarto de século de profissão foi a progressiva deterioração da figura do médico, antes visto como "salvador" do paciente, e agora mais como técnico, muitas vezes impessoal. Atingido às vezes somente por processos nas justiça.
A baixa remuneração dos trabalhadores brasileiros, onde se inclui os médicos, é fator de acentuação deste distanciamento. Quando o "patrão" esta distante, como no caso do poder público ( federal, estadual e mesmo municipal) o médico muitas vezes é tentado a não se aplicar no trabalho, principalmente no horário de trabalho. Tanto faz como ele atende, como ele se atualiza, são fatores geralmente não considerados pelo "patrão". Sem estímulos, acontece o que frequentemente ouvimo: "o médico finge que trabalha e o estado finge que paga". Existe uma cumplicidade perversa, que leva a um único prejudicado: o paciente ( atualmente chamado de "usuário").
Não vejo com otimismo minha profissão neste país e com estes governantes. Por isso talvez esteja desacreditado, cansado, apesar de pertencer a uma "elite" de médicos, pois tenho mestrado, doutorado, sou professor de uma excelente escola médica, tenho atuação profissional em serviço privado de excelência e consultório particular. Bem, mesmo assim sinto-me triste com a perspectiva do Médico, aquele que quer ser um profissional com M (maiúsculo), aquele que trata seus pacientes com humanidade, acolhimento, dando o máximo de si e da medicina, como se fosse para o mais querido familiar seu. Sinto falta do Médico que faz com seus pacientes aquilo que faria com ele ou com seu filho.
Amo a medicina, faria tudo de novo, da mesma maneira, tenho a consciência tranquila de ter feito sempre o melhor de mim, apesar de dificuldades de equipamentos, materiais mais adequados ou mesmo falta deles em alguns hospitais que trabalhei. Devemos fazer o possível com amor e humanidade. Esse deve ser nosso objetivo maior. Sabemos que não podemos resolver todos os males, porém devemos enfrentá-los junto de nossos pacientes com todas as possibildades de que dispomos.